Jazz elevado

Falecido em 15 de junho de 2026, aos 91 anos, o pianista sul-africano Abdullah Ibrahim deixou mais do que uma obra seminal para o jazz: sua música é um grito de resistência contra todas as formas de opressão. O engajamento contra o Apartheid moveu sua música, um tratado de ancestralidade e protesto que encantou Duke Ellington e o consagrou como um dos grandes do gênero.

Por Alê Duarte

Mannenberg é um bairro da Cidade do Cabo, na África do Sul. Foi criado em 1966 e sua matéria-prima é a opressão e o racismo. O governo fascista do país à época, marcado pelo criminoso apartheid, onde uma pequena população de brancos segregava o resto da nação, expulsou mais de 30 mil pessoas de suas casas para criar à força um novo bairro. Essa migração forçada gerou uma onde de “refugiados” urbanos que deram origem ao bairro. Hoje, com mais de 50 mil moradores, é conhecido para além de sua história. Mannenberg também tem um som.

Em 1974, o pianista Abdullah Ibrahim, opositor da política instituída em seu país de origem, decidiu transformar a história do bairro em música. Com uma banda formada por outros 4 instrumentistas, gravou um improviso de pouco mais de 13 minutos que batizou de “Mannenberg”. Ao contrário do que se poderia esperar da história que marcou o surgimento do bairro, apesar de contar com uma certa melancolia, o que se ouve é uma melodia alegre, simples e cíclica, em que os solos de saxofone, principalmente de Basil Coetzee, se desenvolvem para dar quase um clima de celebração. O que se celebra ali, não é o racismo e a segregação, mas sim a alegria de quem, apesar de tudo, resiste. A felicidade, a dança, a música como resistência – a resposta que mais causa ódio ao opressor: apesar de tudo, temos algo que você não tem, algo que seu ódio o impede de alcançar.

A música de Abdullah Ibrahim é cheia dessa sonoridade solar. O músico, que faleceu no último dia 15 de junho, aos 91 anos de idade, era um dos maiores expoentes do jazz do continente africano. O pianista conseguiu agregar a tradição de seu país ao mesmo tempo em que celebrava, na ponta de seus dedos, os mestres das teclas estadunidenses (em especial Duke Ellington) e criou um estilo único de tocar e compor.

Nascido Adolph Johannes Brand em 9 de outubro de 1934 na Cidade do Cabo, adotou, durante parte de sua carreira, o nome de Dollar Brand. Entre o final dos anos 1950 e inicio dos anos 1960 tocou em um importante banda de jazz africano, o Jazz Epistles, que contava com outro pioneiro do gênero no continente, o trompetista Hugh Masekela.

Em 1962, Ibrahim se muda para a Europa e, no ano seguinte, sua então namorada convence seu ídolo, Duke Ellington, a ir assistir a apresentação do jovem pianista sul-africano em um pequeno clube em Zurique. O mestre gosta do que vê e apresenta o ainda Dollar Brand ao mundo com o disco “Duke Ellington Presents The Dollar Brand Trio”, lançado pela Reprise Records.

Em 1968, outra parceria abriu mais horizontes para a música de Ibrahim, à época ainda Dollar Brand. “Hamba Khale!”, gravado em duo com o saxofonista argentino Gato Barbieri estabeleceu a conexão entre os continentes africano e sul-americano e mostrou que o pianista estava disposto a explorar as dissonâncias do free-jazz.

No mesmo ano, Dollar voltou temporariamente para sua terra natal, se converteu ao islamismo, mudou seu nome para Abdullah Ibrahim e se tornou um ferrenho combatente e denunciador do apartheid que a Áfríca do Sul enfrentava. Gravou discos em que fazia questão de vangloriar suas origens, como “African Sketchbook”, African Piano”, “Ancient Africa” e outros.

“African Space Program”, de 1973, traz um elenco de astros de três continentes tocando duas longas composições que exploram os limites do jazz . Com o italiano Enrico Rava, além dos norte-americanos Charles Sullivan e Cecil Bridgwater nos trompetes, Sonny Fortune, Carlos Ward, Roland Alexander, John Subblefield, Hamiet Bluiett nos saxofones, Kiani Zawadi no trombone e ainda Cecil McBee e Roy Brooks no baixo e bateria, respectivamente, Ibrahim amplia seus arranjos para um formato mais orquestral com uma banda de grandes músicos. Era a definitiva aceitação do pianista sul-africano entre os grandes do novo jazz.

Muitos desses músicos voltariam a tocar com Ibrahim durante os anos 1970. De 1975 é o ótimo “Banyana – Children of Africa”, com um trio ao lado de Cecil McBee e Roy Brooks. Do ano seguinte é um de seus melhores discos, o spiritual “The Journey”, outra vez ao lado de uma banda grande e com vários desses mesmos instrumentistas. Ao mesmo tempo, suas gravações em duo o credenciavam cada vez mais. Com o baterista Max Roach fez “Streams of Consciousness” e ao lado do saxofonista Archie Shepp, “Duet”.

“Soweto”, também lançado como “African Herbs”, celebra mais uma vez sua terra natal com um poderoso elenco de músicos africanos – com destaque para os saxofonistas Basil Coetzee e Duku Makasi – e é um álbum essencial para se conhecer a sonoridade de Ibrahim. O mesmo jazz ensolarado, que se volta às raízes africanas e melodias que lembram uma festa estão de volta. É jazz com sorriso no rosto.

Em 1979, o pianista se prepara para entrar na nova década com mais um álbum que celebra todas as texturas e sabores de seu continente com “African Marketplace”, que se destaca desde a capa com uma pintura de uma feira de rua, bem semelhante às brasileiras. Seu som fica cada vez mais estabelecido como algo que bebeu do jazz estadunidense para criar algo autoral – um eterno regresso de onde os criadores do gênero saíram, ou melhor, foram arrancados, para retornar ainda mais poderoso.

Nos anos 1980 ele continua a gravar e tocar ininterruptamente em diferentes formações. Um dos destaques é seu septeto com Charles Davis (sax baritono), Ricky Ford (sax tenor), Carlos Ward (sax alto), Dick Griffin (trombone), Cecil McBee (baixo) e Ben Riley (bateria), que aparece nos discos “Ekaya” e “Water from an Ancient Well”.

Ao longo dos anos seguintes, o pianista continuou gravando e fazendo show por todo o mundo. Quem esteve presente em suas apresentações em São Paulo,  no Sesc Jazz de 2017, presenciou apresentações daquelas que nos transportam para algo mais elevado, além do que podemos tocar ou ver. Talvez seja para essas paragens superiores que Ibrahim embarcou. Mas não sem antes deixar por aqui um rastro do que é possível fazer quando usamos a alegria e o espírito para resistir à opressão que nos cerca.

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