Hitler voltou

O etnólogo, cientista social e professor cubano Carlos Moore publica artigo em que relaciona conflitos históricos e atuais ao avanço global da extrema direita — associando racismo, xenofobia e repressão a minorias negras ao ressurgimento de práticas autoritárias. O autor alerta que um “novo hitlerismo”, agora globalizado e sem Hitler, ameaça o mundo contemporâneo.

Texto: Carlos Moore
Artes: MZK

Karl Marx diz uma frase que me impressiona: “A História sempre se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.” A humanidade conheceu muitas tragédias, mas a maior delas foi o extermínio de cerca de 80 milhões de indígenas do continente americano, num lapso de menos de 50 anos após a chegada dos colonizadores europeus.

No mesmo período, as nações europeias caíram sobre a África com um peso esmagador. A invasão, a partir do século XVI, destruiu uma população estimada em 30 milhões de pessoas. Dessa desarticulação continental, foram parar nas Américas entre 12 e 15 milhões de cativos africanos.

Na própria África, até 6 milhões de africanos pereceram nas guerras de resistência contra os traficantes. A essa sucessão de horrores, agrega-se outra: algo como 3 milhões de africanos morreram na travessia do Atlântico ao longo dos 350 anos de tráfico “negreiro”.

Como declarou Aimé Césaire, os campos de concentração nazistas surgiram nas Américas vários séculos antes do regime hitleriano.

A história hoje se repete: o nazi-fascismo está de volta, sem Hitler. Uma nova hecatombe está em processo, como tragédia e farsa ao mesmo tempo.

Desde o século VIII, o Oriente Médio foi a maior praça de comercialização de mão de obra escrava oriunda da África Subsaariana. Cerca de 30 milhões de africanos subsaarianos foram arrancados de seu continente pelo tráfico árabe do Oceano Índico e levados para o Oriente Médio.

Neste momento, está acontecendo uma guerra militarmente desproporcional na região, entre o imperialismo israelense-estadunidense e a República Islâmica dos Aiatolás do Irã. As zonas de maior destruição estão ao Sul do Irã: na costa do Golfo Pérsico e na região do Estreito de Ormuz, o próprio olho do furacão. As principais vítimas do conflito são as populações afro-iranianas, os antigos escravizados do Irã, que só aboliu a escravidão negra em 1929. Trata-se de uma população de entre 15 e 18% do total, entre 1,8 e 2 milhões de pessoas.

Na Turquia, a sede da Associação Nacional dos afro-turcos foi incendiada e se alega que seu presidente morreu pouco depois em um misterioso acidente de carro. No Iraque, o partido afro-iraquiano Ansar al-Hurryah foi proibido, e seu líder, assassinado, num crime igualmente não elucidado. Em Israel, uma severa repressão às comunidades afro-israelense, afro-palestina e dos imigrantes originários da África Subsaariana atingiu ao menos 35 mil pessoas.

No Magreb, as manifestações pelos Direitos Civis das antigas populações negras escravizadas foram reprimidas com violência, especialmente na Tunísia, de onde se expulsaram cerca de 85 mil africanos subsaarianos. O golpe civil perpetrado pelo presidente Kaïs Saïed, em 2019, desatou uma onda de terror contra a população afro-tunisiana nativa, que constitui até 18% da total, e os imigrantes negros, acusados de “enegrecer o país”.

Saadia Mosbah, considerada a “Rosa Parks do mundo árabe” e presidente da Associação Negra M’nemty, foi detida e condenada por “subversão”, “malversação” e atentar contra a “segurança do Estado”. Ela havia mobilizado a população afro-tunisiana em defesa dos subsaarianos expulsos pelo regime de Saïed.

A repressão aos imigrantes subsaarianos ganhou a Europa Ocidental a partir de 2000. Campanhas racistas alimentaram velhos ódios xenofóbicos e ações dos governos resultaram em detenções sumárias nas ruas e deportações em massa. A extrema-direita de cunho neonazista já está no poder, legitimamente eleita, em países como Holanda, Itália, Ucrânia, Áustria e Nova Zelândia; e, desde 2018, ela também mostra a sua cara na América Latina: El Salvador, Chile, Honduras, Argentina, Equador, Panamá e Bolívia. No Brasil, adeptos de Jair Bolsonaro esperam eleger este ano seu sucessor.

Foi a vitória de Barack Obama nos Estados Unidos, em 2008, que agiu como estopim do MAGA-Trumpismo, o qual fez ascender a extrema-direita nazifascista no mundo. Os desmandos de Trump não passam de reflexo de um novo hitlerismo multinacional e poliglota, sem Hitler.

Quem não compreender o que está acontecendo no mundo é porque NÃO QUER: simplesmente por não se importar ou por concordar com esta nova tentativa de submeter a humanidade a um regime nazifascista planetário.

*Esse texto foi publicado originalmente no site da Folha de São Paulo

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